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Sobre “Alvorada Vermelha”, de J.P. Rodrigues e J.R. Guerra da Mata Há o sangue que sai de uma ferida, no nosso braço - ao vê-lo, em choque, o tempo desacelera. Há o sangue invisível que corre debaixo da pele. Suspeitamos que o sangue se acumula em órgãos que dele se encontram cheios, o baço, o fígado (há histórias de rebentamentos). No seu percurso passa pelo o coração, aquele que nos lembra da cadência, que nos ensina, ou pelo menos nos lembra a caminhar, a rimar, a repetir e a dançar. Há o sangue que não se pode estancar, que flui do pescoço do assassinado, que se mistura com o ar e com o som, e que não podemos travar com um torniquete, porque isso causaria a asfixia. Há o sangue suspenso num saco, misturado com anticoagulantes, num hospital, junto a um convalescente; há o sangue no chão da rua, a escurecer do vermelho vivo. Há o sangue já seco, sem valor, podia ser merda. Existe na cultura um resto de um esquema de coordenadas formal, uma matriz que enquadra o sangue, as matérias orgânicas e os seus significados. Esta matriz é residual: as forças simbólicas associadas aos materiais desvaneceram-se nas sociedades modernas, mas existe ainda, viva, uma sombra dessa matriz, que existirá enquanto houver corpos humanos. O leite e o excremento são colocados em categorias menores dessa matriz, com a urina, a saliva, o suor. O sémen é o mais próximo em potência formal, mas diferente, assimétrico, ligado ao desejo específico, local, daquele corpo e da descarga sobre outro. O sangue está numa categoria “superior” das matérias vivas porque não pode escapar dos corpos, o seu fluxo é interno e completo, e a sua perda ligada em absoluto à perda da vida ou ao seu enfraquecimento: identifica-se com o valor da vida e da sua preservação, e a sua visibilidade é sempre um sinal visceralmente sério. Muitos primitivos e antigos tinham isto bem presente, na importância simbólica insubstituível do sangue nos rituais sacrificiais. O seu aparecimento era o sinal de que o jogo entrava na parte mais elevada, a parte da cerimónia carregada de potencial suficiente para romper a barreira que separava da esfera do divino. Ao inventar a transfusão, segundo uma lógica pré-moderna, tornamos o fluxo visível, desenterramo-lo, quebramo-lo, banalizamo-lo, num processo de equiparação do sangue às matérias vivas menores - ou a qualquer matéria inerte, sujeita ao valor de mercado. É por isto que as Testemunhas de Jeová, numa atitude que nos escandaliza, rejeitam a transfusão. Para estes crentes, numa ferida o sangue brota de uma fonte sagrada, numa transfusão vêem um exemplo do corte simbólico, que separa do estado de graça perdido. O filme de JRGM e JPR é enquadrado pelo espaço de um dos últimos mercados em que os animais são mortos para venda imediata, o Mercado Vermelho de Macau. O plano inicial mostra um sapato de salto alto que é atropelado pelo rodado de um camião. Mas este não é um filme de denúncia ou elegia de um mundo que desaparece. Nem a longa sequência que mostra a chegada dos primeiros trabalhadores à porta do mercado, no tempo real da acção, é senão a preparação do tempo para o que considero a acção principal deste filme. No coração do filme dá-se a passagem para um plano radical, na critica da violência de um mundo que destrói outro: entre florescimentos de graça, entre as sereias nas tinas do peixe, vêem-se animais que nunca vimos a sangrar abundantemente, ao serem esquartejados em geometrias estranhas - pelo menos para os olhos de um ocidental. Este sangue escapa sempre ao cliché, à imagem morta, pela atenção da composição: a imagem é formalmente tão fresca quanto o sangue, surpreendente, não a letra morta de filme de acção. A imagem do sangue em “Alvorada Vermelha” volta a tomar parte num pequeno sacrifício simbólico, menor, precário, como todos os sacrifícios contemporâneos. Isto é o que sucede em todos os filmes com sentido em que sangue é derramado, mas aqui a imagem do sangue tem uma insistência e obstinação que passa a ser o assunto central, talvez com um paralelo possível nos filmes mais desolados de Sam Peckinpah. Assiste-se a uma troca, algo é oferecido, algo abre as portas e desentorpece, acorda a imagem do sangue da indiferença por sobreexposição e mau-trato (o destino da maioria das imagens humanas do presente). E o que é oferecido? Numa pequena cerimonia sacrificial, a imagem adormecida recebe atenção e desejo, é olhada com olhos claros, limpos, e com isso volta, por momentos, ao fluxo das imagens vivas. A imagem viva do sangue não é um aqui um elemento decorativo da morte, é uma aposta radical na vida. Algumas das forças vivas do mundo que vai ser destruído passam a viver, pelo sacrifício composto na atenção e amor a Macau, na duração do filme: aqui o sangue é uma dádiva de vida (artificial, artifício de amor) ao mundo que desaparece. Para os que não o suportam, que o acham uma matéria cruel em si, é bom lembrar que crueldade maior, e insuportável para os artistas é viver na complacência de um mundo em que todas as formas se equivalem, no conforto desligado da indiferença que aqui é confrontada, num gesto duro, mas generoso e reparador.
(Source : raisedonsandwiches)
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(Source : crookedruler)
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Jessica Hines
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Rui Chafes
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